Seja sincero: quanto do conhecimento que você faz uso hoje em sua profissão foi adquirido em disciplinas da faculdade?
Esta questão vem me intrigando a algum tempo, espreitando aqui e ali, furtivamente. Finalmente, pegou-me fortemente quando soube da possibilidade de realizar atendimentos em meu estágio durante o ano que vem e, principalmente, pelo fato de perceber que estou a caminho de completar a metade de minha graduação.
Encaminho-me para o terceiro ano da graduação em psicologia e, no entanto, não me sinto minimamente qualificada para exercer tal profissão!
Contra tal acusação, alguns poderão argumentar: "É cedo ainda", ao qual outros dirão: "Algumas coisas você só aprende na prática"
Peço perdão se o leitor compartilha destas idéias, mas absolutamente não acredito em sua validade. Tentarei, aqui, expor meu descontentamento.
A graduação é tida hoje, ao menos no Brasil, como a principal forma de adquirir habilidade e conhecimento para desenvolver atividades profissionais. No entanto, não estou muito certa da sua capacidade para cumprir esta função. A maior parte das disciplinas ministradas são essencialmente introdutórias ou tendem muito para a generalização de conceitos. Ao final, sabe-se sobre muito, mas quase nada sobre o essencial.
O que percebo hoje, na minha graduação em Psicologia, é que perde-se muito tempo para "formar a base" e pouco dedica-se ao ensino de conceitos e estratégias práticas fundamentais ao exercício da função de psicólogo. Estudos sobre a estrutura do cérebro, seu mecanismo de funcionamento e especialmente a história da disciplina somam grande parte do calendário acadêmico. Também o fazem disciplinas relacionadas a pesquisa, a despeito do fato de que apenas uma pequena porcentagem dos estuidantes seguirá carreira acadêmica.
Não acredito que tais conhecimentos sejam "inúteis". Reconheço sua importância, prezando, no entanto, por um remanejamento da dedicação dispensada a cada uma delas. Acredito na importância de se compreender o funcionamento anatômico e fisiológico do cerebro. No entanto, acredito ainda mais na necessidade de se obter um entendimento completo acerca de suas especificidades na ocorrência de neuropatologias. Da mesma forma, compreendo a importância do conhecimento da história de uma disciplina. Mas não compreendo o fato de seu estudo por vezes suplantar o estudo das contribuições atuais da disciplina em termos de conceitos e teorias. Afinal, são estes conceitos e teorias que - espera-se - deverão embasar a prática do profissional.
Em resumo, a graduação tem, pois, dedicado-se a fornecer a base para o formação do profissional. Isso não seria ruim não fosse o fato de que o aprofundamento fica creditado ao estudo externo às obrigações da graduação - o que nem sempre acontece.
Assim, bons profissionais devem atentar-se para cursos e especializações externas, além de montantes de livros infindáveis. Enquanto colocamos no mercado uma maioria de profissionais que não dispõe de tempo, dinheiro ou vontade para tal façanha. E pagamos por isso.
Ou a estrutura da graduação deveria ser modoficada ou deveríamos admitir, enfim, que esta não é capaz de formar sozinha profissionais completos para o mercado de trabalho.
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