segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Poema em prosa

"Budapeste, no exato momento em que termina, transforma-se em poesia."José Miguel Wisnik

Acredito que não há melhor forma de se descrever a sensação que fica ao final de "Budapeste" de Chico Buarque.
Sim, confesso que fiquei realmente apaixonada pelos seus livros, e por este senti alguma atração ainda mais especial.

O enredo leve e delicioso é carregado de metáforas inteligentes e inesperadas, bem como o são os relatos de pensamentos e sentimentos do personagem José Costa. Aliás, o inesperado é elemento constante no livro. A história é repleta de reviravoltas, reencontros, partidas e chegadas
de modo que é gerado diante dos leitores um personagem em dúvida com relação a própria identidade. Um personagem completamente dividido entre dois países, duas línguas, dois lares, duas mulheres.

Aliás, é esta crise o ponto forte do livro, capaz de trazer questionamentos acerca de nossa própria noção de identidade e - por que não? - individualidade. Afinal, o que nos define? Somos pessoas diferentes em contextos diferentes? É possível ter duas identidades?

Seja por esta provocação, seja pelo simples gosto pela literatura:
Vale a pena ler!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Controlabilidade

Não há absolutamente nada mais irritante para uma criança do que uma mãe decidindo o que ela vai vestir, comer, fazer e falar. Não, definitivamente não há nada mais irritante do que uma mãe controlando cada ação de seu filho. E pior quando o faz acreditando piamente que é pelo bem dele.

Pois bem. Discutamos o caso.


Há tempos é conhecida pela psicologia a necesidade de autoafirmação de cada sujeito, bem como a necessidade de sentir-se no controle de sua própria vida. Esta última mostra-se imprescindível para o bom funcionamento psicológico do indivíduo, uma vez que um esquema de pensamento marcado pela impressão de não possuir controle sobre os acontecimentos cotidianos está intimamente relacionado a sentimentos depressivos. A ligação é clara: se não há controle sobre a própria vida, qualquer problema se transforma em uma desgraça, ao mesmo tempo em que as conquistas são frequentemente atribuídas a sorte ou acaso.

Em um clássico experimento, foi introduzida na vida de um grupo de idosos residentes em um asilo algum grau de controle sobre sua rotina. Assim, permitiu-se que estes escolhessem a data em que gostariam de assistir a um filme e também uma planta para cuidarem. Parece coisa boba, mas esta pequena mudança foi capaz de reduzir em 50% o índice de mortalidade entre esta população, em comparação a seus colegas que não tiveram esta oportunidade de escolha. A controlabilidade realmente faz bem a nossa psique!
Mas além de melhor adaptação psicológica, estou convencida de que a capacidade e a motivação para fazer escolhas referentes a própria vida também pode estar relacionada a outras características positivas, especialmente no que diz respeito ao ambiente escolar.



Estudos mostram que crianças cuja grade escolar é mais flexível tendem a apresentar maiores índices de criatividade, além de motivação para desempenhar tarefas escolares. No entanto, a quase absoluta maioria das escolas investe em grades rígidas e extremamente desmotivadoras. As tarefas escolares inevitavelmente são encaradas enquanto obrigações, cujo valor nem sempre é compreendido pelos estudantes. Cerca de doze anos de vida escolar são necessários para que, enfim, possa-se ter algum controle sobre o próprio aprendizado. Seja pela escolha do curso em si, seja pela própria flexibilidade inerente, a faculdade finalmente representará a oportunidade de reflexão sobre os próprios interesses e desejos profissionais e as primeiras oportunidades para o estudo e leitura por prazer, não obrigação.

Não sou anarquista, nem acredito que devemos deixar as crianças entregues a sua própria vontade. No entanto, prezo por uma maior liberdade e oportunidade de fazer escolhas! Acredito que o ato de optar é também um comportamento a ser aprendido, e como tal deve ser praticado desde tenra idade. Pois a capacidade e a motivação para fazer escolhas é também, acima de tudo, garantia de independência e boa adaptação, seja ela pessoal ou profissional.


Vale a pena pensar sobre








sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pérola feminista

Para mulheres que gostam de tiras, o blog Prycila Freeakomics é um prato cheio!


O blog usa e abusa da ironia, de modo a incutir um feminismo ácido em tiras de humor leve. E haja ironia! O que você esperava de histórias cuja personagem principal é uma boneca inflável culta e feminista?
Uma pérola entre os blogs de humor essencialmente machistas!

Vale a pena visitar!




quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Não chore por ele

O talento musical de Chico já foi largamente constatado e aclamado - por gerações, diga-se de passagem. Suas letras trazem uma sensibilidade estonteante, pois Chico soube traduzir como poucos a alma humana - em suas grandezas, mas especialmente em sua mesquinhez.

Como já devem ter percebido, sou mais uma integrante fanática de sua legião de fãs, absolutamente apaixonada pelo ato de vasculhar suas canções em busca de mensagens nas entrelinhas - sejam críticas políticas ou metáforas românticas. No entanto, confesso que tive um certo receio de encontrar o Chico Buarque escritor - e não obter o mesmo prazer em vasculhar seus romances.


Percebi meu engano já na primeira página de "Leite Derramado".


Que me perdoem os críticos literários, mas lendo-o, senti um mesmo prazer pela leitura que não sentia a algum tempo - desde que resolvi ler um outro livro de capa laranja flourescente - Dom Casmurro de Machado de Assis.


Leite Derramado é o monólogo de idoso moribundo. Seu relato é constante - não há um parágrafo sequer, como se não houvesse tempo para pausas - embora nada regular - a cronologia perde o sentido em sua fala. As lembranças se confundem, sobrepõem, repetem e se esvaem, em uma narrativa carregada de ironia nas entrelinhas.
O pano de fundo é a decadência da família Assumpção - com "p" mudo, como a personagem Eulálio faz questão de enfatizar por demonstrar sua ascendência nobre. As memórias trazem então imagens de tempos prósperos com banquetes extraordinários e convidados ilustres, lembranças da ex-mulher Matilde e sua beleza marcadamente morena, bem como desgostos da imundície da vida atual - em um barraco de cômodo único anexo a uma igreja evangélica.
Em indas e vindas que lembram o balanço do mar, vão se tecendo o histórico de seus descendentes, bem como o seu próprio, de modo que o ancião tenta ansiosamente agarrar-se às memórias que vão de desfazendo em sua mente.
Ao fim, o passado, o futuro e o presente se confundem e se condessam, como se sempre tivessem sido um só e a vida fosse composta fosse essencialmente cíclica...
Vale a pena ler!

sábado, 2 de janeiro de 2010