sábado, 4 de agosto de 2012

Pra onde você quer ir?


Alice: "Você pode me ajudar?"
Gato: "Sim, pois não."
Alice:"Para onde vai essa estrada?"
Gato: "Para onde você quer ir?"
Alice: "Eu não sei, estou perdida."
Gato: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."

Foi Lewis Carroll que, em 1962, publicou este interessante diálogo em Alice no País das Maravilhas (que, diga-se de passagem, é um livro fantástico, recheado de críticas políticas e sociais,  muito diferente da versão infantil e boba proposta pelos Estúdios Disney). O brilhantismo vêm do tom essencialmente sarcástico da frase do gato, aquela que, depois de dita, parece absurdamente óbvia: afinal, se você não sabe para onde vai, como separar os caminhos entre “correto” e “incorreto”?

No entanto, acredito piamente que, por baixo dessa obviedade aparente, esconde-se um fato revelador: quantas pessoas buscam realização e sucesso, mas não sabem defini-los?

Realização e sucesso são conceitos essencialmente subjetivos. Isto significa que indivíduos diferentes podem apresentar idéias totalmente diferentes, e até mesmo opostas, sobre eles. O interessante é que estas idéias revelam, muito mais do que uma forma racional de pensar, os valores essenciais de uma pessoa. Se para você status é um valor importante, provavelmente a realização virá quando você estiver em uma posição em que se sinta admirado. Se a intensidade é que importa para você, o sucesso pode significar ter dinheiro para usufruir de bens. Mas se a bondade é o que realmente mexe com você, a realização estará muito mais ligada a sentir que se faz o bem às pessoas do que a qualquer outra coisa.

“Pra onde você quer ir?”

Valores quase nunca andam de mãos dadas com o raciocínio lógico. Isto porque foram construídos ao longo de nossas experiências de vida e, por isso, sedimentados por camadas e camadas de emoções. Se status é algo importante para você, provavelmente você tem boas lembranças de momentos em que se sentiu admirado ... Ou você pode se sentir como o patinho feio que deseja se tornar o cisne! De qualquer modo, os valores estão dentro de nós, incrustados, e determinam em grande parte nossa reação emocional diante dos eventos externos. São os valores – e somente eles - que vão te dizer que você atingiu a realização e o sucesso!

O caso é que poucas pessoas tomam consciência de que a direção que procuram estão dentro delas mesmas! Buscam incansavelmente por setas que indiquem o caminho correto na estrada, e seguem como Alice, buscando o caminho certo, sem ter, para si mesmas, o que consideram o certo.

É claro que o processo de encontrar seus próprios valores não é fácil. Envolve profundo e árduo auto-conhecimento. Mas, uma vez descobertos, você terá certeza sobre suas preferências, parâmetros de realização e de sucesso. Terá certeza também sobre o que, realmente, te traz a satisfação e a sensação de dever cumprido...

... Uma vez descobertos os valores, você terá certeza sobre suas metas, sonhos e objetivos e, então, “qualquer caminho” não te servirá mais!

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quinta-feira, 19 de julho de 2012


O que determina o sucesso profissional de uma pessoa?
Inteligência? Esforço e determinação? Boa rede de contatos?

E o que determina o sucesso de uma marca de produtos?
Bom marketing? Preço? Qualidade?

O que determina o sucesso de um livro, filme ou música?
Qualidade? Capacidade de ser comerciável? "Teor" artístico?

Acredito que todas as respostas estejam corretas. Mas, além delas, há uma outra extremamente importante, mas nem sempre lembrada: o acaso!

Sim, o acaso! Duvida?

Dados de uma pesquisa realizada com consumidores nas ruas demonstrou que, embora a grande parte deles afirmasse que preferia uma marca de refrigerantes a outra, não era capaz de distinguir a marca preferida em um teste cego. 


Um destes óculos é da RayBan e custa R$600,00. Os outros são réplicas, e valem de R$ 20,00 a R$ 40,00. Você seria capaz de identificar o original?

Em outro experimento, que buscava avaliar quais elementos de uma música determinavam seu sucesso, foi entregue a quatro grupos de participantes com características semelhantes uma playlist de músicas. Um a um, os participantes deveriam selecionar sua preferida, de modo que os outros participantes tinham conhecimento sobre os votos dos anteriores. Os resultados demonstraram que as músicas que receberam mais votos no início acabaram sendo selecionadas pelos participantes em um número surpreendentemente maior de vezes, no melhor efeito "maria-vai-com-as-outras". E as músicas que receberam mais votos diferiram totalmente entre os quatro grupos. Aparentemente, o fato de a música ter recebido, ao acaso, mais votos de início, era o que lhe garantia o primeiro lugar no ranking. 

E não pense que isso só acontece com leigos!

Uma pesquisa com especialistas em vinho apontou que estes eram muito mais influenciados pelas notas que os vinhos haviam recebido em avaliações passadas do que por quaisquer outros atributos no momento de determinar o valor da bebida.

Interessante, não é?

E o que dizer das artes?


A obra acima, vendida pela bagatela de US$ 2,8 milhões, não é uma fotografia tradicional. Trata-se, ao invés disso, de uma fotografia de propaganda de cigarro Malboro. Convenhamos: O que há de artístico, genial ou único em fotografar um anúncio? Acontece que a obra é assinada pelo fotógrafo Richard Prince, o que lhe confere notoriedade e, claro, vários dígitos no valor. No mercado das artes, o valor tem pouca relação com a estética, e muito mais ligação com a movimentação de mercado. Se a produção de um artista, por qualquer motivo, valoriza-se entre curadores, museus e compradores, seu preço dispara. Será que aqui temos também um efeito “maria-vai-com-as-outras”?

Ok. O sucesso de marcas, produtos e mesmo obras de arte parece possuir, em várias ocasiões, muito menos relação com atributos do que com o acaso. Mas o que dizer de pessoas e carreiras?

Bem... Cometer acertos e erros quase nunca depende somente de competência. E por diversas vezes, produtores que emplacaram vários sucessos de bilheteria de forma seguida simplesmente passam a produzir um fracasso atrás do outro. O que pode ter acontecido com eles em tão pouco tempo? Perderam a inspiração? Simplesmente deixaram de ser criativos e ter faro bom para sucesso?

...Ou estas oscilações poderiam ser também fruto de acaso?



Leonard Mlodinow aponta estes e muitos outros fatos curiosos em “O Andar do Bêbado”. De forma cativante, irreverente e persuasiva, Mlodinow nos leva a refletir sobre o acaso e sua enorme influência, de eventos cotidianos a grandes momentos históricos. Conhecimentos de estatística, psicologia e antropologia se mesclam com maestria, cercando-nos de todos os lados e nos fazendo deparar com nossa enorme dificuldade em aceitar o acaso e compreendê-lo.

Para Mlodinow, os processos aleatórios são fundamentais na natureza e onipresentes em nossa vida cotidiana, mas embora reconheçamos o efeito do acaso para eventos simples, como um jogo de dados, não conseguimos lidar com o fato de que este possa determinar grandes eventos, especialmente quando se trata de nossa vida pessoal e profissional. E isso nos leva muitas vezes a tomar decisões erradas, apoiados na ilusão de que estamos sempre no controle de nossas vidas e dos eventos que nos cercam.

Com certeza, um livro que vale a pena ser lido se você quer desafiar suas crenças sobre o mundo, as pessoas e, especialmente, seu conceito de sucesso!

...E entender que, às vezes, no caminho do sucesso, nos parecemos muito menos com um executivo determinado galgando os degraus de uma escada do que um bêbado errante.  


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Sonho é uma palavra que já não existe em meu vocabulário.
Nem sonho, nem orgulho, nem vitória, nem conquista.
Não há mais nada... Só o cotidiano, a vergonha, a tristeza...

A tristeza do fracasso

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quinta-feira, 28 de junho de 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sobre Problemas complexos, competências comportamentais e porque o inferno são os outros


Segundo Adam Kahane, problemas complexos são aqueles que são:

-Dinamicamente complexos, ou seja, suas causas e efeitos estão afastados no tempo e no espaço, de modo que são difíceis de compreender com base na experiência direta.

- Generativamente complexos, ou seja, se desdobram de forma desconhecida e imprevisível e

- Socialmente complexos, ou seja, problemas em que as pessoas envolvidas tendem a ter percepções muito diferentes da situação, polarizando e emperrando o processo de solução.

 Kahane conhece bem este tipo de problemas: já atuou como facilitador de discussões entre pensadores, políticos, empresários e militantes durante a guerra civil da Colômbia, a crise econômica de 2001 da Argentina, o período de pós-guerra civil da Guatemala, o período pós-apartheid na África do Sul, sem falar de Israel, Irlanda do Norte, Chipre e País Basco.
Em seu livro “Como Resolver Problemas Complexos”, Kahane apresenta sua experiência em uma narrativa bastante envolvente, e aponta alguns caminhos para a solução destes problemas: falar e escutar de forma aberta, e criar um “diálogo generativo”.

Fica evidente nas histórias a dificuldade em conciliar lados tão opostos de uma mesma realidade, especialmente quando esta envolve um histórico de conflitos armados e mesmo mortes de entes queridos. E fica especialmente evidente que o fazer de forma eficaz envolve muita inteligência. Não a inteligência lógico-racional, mas inteligência emocional.

O conceito de inteligência emocional, surgido em 1985, tem como principal teórico, Daniel Goleman. O conceito refere-se à "capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos." (Goleman, 1998), e tem ganhado cada vez mais destaque, especialmente no que diz respeito ao contexto das organizações.

Não é para menos! Segundo os estudos de Goleman, 90% da diferença entre as pessoas que obtém grande sucesso pessoal e profissional, e aquelas com desempenho apenas mediano, se devem a fatores relacionados a competências comportamentais, mais do que às habilidades aprendidas na escola!

É claro que as universidades ainda não são hoje responsáveis por desenvolver estas habilidades. Ao contrário, empurram para o mercado jovens entupidos de conceitos teóricos, mas pouca ou nenhuma habilidade para lidar com os desafios da convivência pessoal. Aprendem muito sobre o processo, mas o processo não ocorre e a técnica não é coloca em prática sem as pessoas!

Se as competências comportamentais são tão importantes para o sucesso, porque não desenvolvemos caminhos para desenvolvê-las? Por que não nos preocupamos com elas tanto quanto nos preocupamos em adquirir um diploma universitário?

A resposta? Porque lidar com pessoas é um saco! É, é isso mesmo! Lidar com pessoas é chato, desgastante e muitas vezes frustante. E não confiamos muito no nosso taco para isso!

Segundo a Análise do Comportamento, a auto-confiança está ligada à probabilidade de produzir reforçadores, ou de forma simplificada, conseqüências positivas. Assim, você se sente confiante diante das situações em que tem (ou acreditar ter) maior possibilidade de conseguir o resultado desejado.

Extrapolando, acredito que não seja exagerado dizer que a maioria das pessoas sente-se mais confiante diante de tarefas que exigem competências técnicas do que aquelas que exigem competências comportamentais.

Você estuda a matéria, e então responde questões sobre ela em uma prova. Você faz aulas práticas de direção, e depois deve dirigir com um avaliador sentado a seu lado. Essas são com certeza situações ansiógenas para todos. Mas guardam um elemento de consolo: é possível ter boa previsibilidade sobre o que vai ocorrer no dia do teste. É possível treinar muitas vezes, e a cada vez que se treina, se adquire mais competência, e conseqüentemente, aumenta-se a probabilidade de ir bem no teste.

E nas situações sociais? Imagine que você precisa fazer uma palestra para um público bastante exigente, pedir aumento a seu chefe ou conhecer a família do novo namorado.  Podemos até buscar informações sobre as pessoas antes, na tentativa de nos prepararmos melhor, mas com certeza nosso poder de previsibilidade é muito menor do que em situações que exigem quase somente competências técnicas. E se é possível treinar antes, seja com um amigo, seja na frente do espelho, o treino será provavelmente bem menos real do que fazer provas de simulado ou provas práticas de direção. Não adianta, pessoas são imprevisíveis!

 A probabilidade de você se preparar e treinar muito para uma conversa e não alcançar os resultados esperados é muito maior do que a de você se estudar com afinco e não atingir uma boa pontuação em uma prova. Daí vem a frustração e a diminuição da autoconfiança diante de outras situações parecidas. E vem também nosso interesse maior em buscar as competências técnicas, com resultados mais “garantidos” do que as comportamentais...

Mas apesar de tudo, há um trunfo nas competências comportamentais: uma vez desenvolvidas, seu poder de generalização é muito maior. Não importa que você tenha estudado muito para geografia e tenha alcançado ótimas notas: para ir bem na prova de história, terá que estudar muito também. Claro que há certa interdisciplinaridade, mas no geral, competências técnicas tendem a ser muito mais específicas do que as comportamentais. Se você tem facilidade para discutir música com seus amigos, provavelmente não terá problemas para discutir negócios em sua empresa. Se você aprende a controlar sua frustração quando algo no trabalho não dá certo, provavelmente lidará melhor com este sentimento quando seu namorado atrasar. Uma vez desenvolvida uma habilidade, ela pode ser empregada em todos os contextos.

Claro que isto não é uma regra: é possível ser uma pessoa muito assertiva com colegas de trabalho, mas essencialmente agressivo em casa. Mas,de forma geral, acredito que estamos passando por uma grande revolução nas organizações, para novos tempos em que indivíduos emocionalmente inteligentes serão valorizados,em que problemas complexos serão resolvidos muito mais por meio do diálogo aberto do que de análises numéricas frias, que as pessoas serão mais importantes do que as técnicas. Novos tempos em que excelentes profissionais serão também inevitavelmente indivíduos admiráveis!


Vale a pena esperar pra ver! 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Quer que eu desenhe??


A nova categoria genial de vídeos de Carlos Ruas, que pretende explicar conceitos científicos complexos (começando com a Seleção Natural  e a Teoria da Relatividade)  de forma pra lá de bem-humorada, sem deixar, é claro, de contar com os desenhos e caricaturas de Um Sábado Qualquer.


Vale a pena assistir!




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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sobre olhos e mente

Feche um dos olhos e foque sua visão no que estiver a sua frente. Agora abra-o, feche o outro olho e continue a focar a mesma direção. Por fim, veja a mesma cena com os dois olhos. Percebeu a diferença?

Vou ser sincera: de imediato, também não fui capaz de percebê-la. Foi apenas depois de algum tempo de examinação curiosa que a diferença cresceu e consegui notá-la.

A principio, pode parecer muito sutil, mas com o tempo fica claro: a percepção de profundidade só existe com a fusão da imagem captada pelos dois olhos. A visão de apenas um olho é plana, bidimensional. É como se os objetos, distantes e próximos, estivessem todos juntos, em uma superfície de fotografia. É preciso que a imagem dos dois olhos se fundam em uma única para haver a discriminação perfeita da distância.

É fácil perceber isto ao observar um dedo bem a frente dos olhos. A imagem do olho direito revela a "frente" do dedo, bem como uma parte da lateral direita. Já a imagem do olho esquerdo revela a "frente" e uma parte da lateral esquerda. Fundidas as imagens, ao se observar o dedo com os dois olhos, é possível ver ao mesmo tempo as três partes: a "frente", a lateral direita e a esquerda: uma imagem tridimensional!

Normalmente, no dia-a-dia, não nos damos conta deste fato. Mas o que aconteceria se, por um infeliz acidente, você perdesse esta capacidade e passasse a ver, de uma hora para a outra, o mundo de uma maneira plana, como uma fotografia?

Este é o drama do famoso neurologista Oliver Sacks. Sacks, que sempre fora admirador desta capacidade, vê-se perdendo-a progressivamente em virtude de uma doença. E revela detalhadamente este experiência em seu livro O Olhar da Mente, em meio a diversas outras histórias formidáveis sobre os limites entre os olhos e a mente.

Sacks explora estes limites relatando casos curiosos - e por vezes trágicos - de pacientes. Histórias como o caso do homem que perdeu subitamente sua capacidade de ler, embora sua visão estivesse totalmente preservada e mantivesse sua capacidade de compreender letras individualmente.

Os casos revelam que a relação entre a mente e os olhos é bastante complexa e por vezes mesmo obscura. E que os processos realizados entre o fato de você olhar para sua mão e formar a imagem dela em sua mente parecem ser conduzidos majoritariamente pelo seu cérebro, não pelo seus olhos, de uma maneira incrivelmente complexa e bela.


Vale a pena ler!



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