domingo, 10 de agosto de 2008

Tudo sobre ausência e perda



A ausência e a perda. A ausência dói mais do que a perda.

A perda sempre cicatriza; a ausência sangra constantemente.

A ausência jorra sua púrpura dor, manchando as linhas da vida escritas com grande esforço à mesma rubra tinta. A púrpura ausência torna acinzentados os céus e amarelados os sorrisos.

A perda aprende a suspirar com admiração o horizonte do outro lado da margem do rio.A perda cura. A perda cura a si mesmo e ao ser que perde, ao passo que a ausência é o sofrimento. A ausência é o andar pacato do relógio, é o tiquetaquear eterno da espera. A ausência é a dor. A ausência é sádica.

Ausência é desejo frustado. São folhas do calendário atiradas ao lixo. É a ansiedade. É o desespero úmido e eterno. Cortante. Gélido.

Perder é marcar um encontro com um novo eu. É a desintegração e a remodelagem. A perda é o nascer, é o crespúsculo e o despertar dos olhos. É catar as peças do quebra-cabeça dos pensamentos pelo caminho. E limpar o sangue das peças, sentar à sombra das poucas àrvores e maravilhar-se mais uma vez com a beleza da imagem completa.

A perda é perceber que há cacos de vida que cortam a pele. Mas, sobretudo, a perda é unir persistentemente os cacos, com sangue, com lágrimas. A perda é colar os cacos lado ao lado harmoniosamente e vislumbrar ao fim o vitral que somos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Federal Way of Life



Quando se entra em uma universidade pública, a expectativa acerca das pessoas que encontraremos é muito alta. Logo imaginamos aquele clichê de professor “louco”, de estilo alternativo, extremamente conceituado e ativista. Ou então que todo o pessoal de sua sala será diferente de todas as pessoas que você já conheceu. Qual a surpresa quando você percebe que todos são muito mais parecidos com você do que você jamais supôs, e que a história de vida de muitos deles pode ser muito parecida com a sua! E quanto aos laboratórios e à infra-estrutura? Nada de anormal! Tudo simples e corriqueiro. As salas de aula são exatamente iguais àquelas da sua sala de colegial – exceto, é claro, pela ausência de ar-condicionado. E, no entanto, qual o segredo das universidades públicas? O segredo é o que se passa em cada uma dessas salas. O segredo são todas as palavras e todo o conhecimento que jorra dessas bocas incessantemente. Em um mesmo corredor podem estar sendo discutidas a política monetária do Japão, os avanços no tratamento da depressão e toda a filosofia de Descartes. E de forma invejável – diga-se de passagem. O segredo da federal não é material, palpável, mas pode ser encontrado em cada conversa de barzinho ou mesmo lanchonete. Está no ar carregado de conhecimento que aspiramos. Está em cada discussão ou mesmo conversa jogada fora nos intervalos das aulas. Está nos trabalhos sociais realizados e na parede do teatro coberta de grafite. O segredo da federal consiste em perceber que apesar de todas essas pessoas serem “normais” elas são fabulosas e te surpreendem com suas idéias diariamente. E mais do que isso, o segredo da Federal está em compreender que ela não é feita de super-heróis. É feita, como eu e você, de pessoas de carne, osso, palavras e dedicação...