
A ausência e a perda. A ausência dói mais do que a perda.
A perda sempre cicatriza; a ausência sangra constantemente.
A ausência jorra sua púrpura dor, manchando as linhas da vida escritas com grande esforço à mesma rubra tinta. A púrpura ausência torna acinzentados os céus e amarelados os sorrisos.
A perda aprende a suspirar com admiração o horizonte do outro lado da margem do rio.A perda cura. A perda cura a si mesmo e ao ser que perde, ao passo que a ausência é o sofrimento. A ausência é o andar pacato do relógio, é o tiquetaquear eterno da espera. A ausência é a dor. A ausência é sádica.
Ausência é desejo frustado. São folhas do calendário atiradas ao lixo. É a ansiedade. É o desespero úmido e eterno. Cortante. Gélido.
Perder é marcar um encontro com um novo eu. É a desintegração e a remodelagem. A perda é o nascer, é o crespúsculo e o despertar dos olhos. É catar as peças do quebra-cabeça dos pensamentos pelo caminho. E limpar o sangue das peças, sentar à sombra das poucas àrvores e maravilhar-se mais uma vez com a beleza da imagem completa.
A perda é perceber que há cacos de vida que cortam a pele. Mas, sobretudo, a perda é unir persistentemente os cacos, com sangue, com lágrimas. A perda é colar os cacos lado ao lado harmoniosamente e vislumbrar ao fim o vitral que somos.

Um comentário:
sem palavras ...
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