Esta foi a conclusão que cheguei após uma pequena análise dos principais contos de fada. Para mim, eles podem parecer inocentes, mas trazem muitos valores implícitos que não compartilho. Você duvida? Pois passemos então a descrição de cada um:

Cinderela:
Só por ser um conto de princesa, já traz valores machistas. Afinal, toda história que envolva um “amor a primeira vista” traz –a meu ver - esta carga agregada. Isso porque a paixão e o encantamento do príncipe à Cinderela devem-se – tão e somente – a beleza desta, de modo que se tem a associação entre o belo e o bom e abre-se margem para a crença de que só quem é belo merece ser amado. Um tiro na auto-estima das meninas. Além disso, dentre as clássicas princesas Disney, todas são magras e a maioria tem pele clara – exceto a Jasmine do Aladin - e olhos claros também. Ou seja, uma grande parte das garotas não se identifica com este padrão, de modo que temos mais um tiro em sua auto-estima.

Branca de Neve:
Novamente, o único valor da princesa deve-se ao fato de ser bela. E só. Branca de Neve revela-se uma garota frágil e inocente, sendo facilmente enganada pela bruxa, de modo que só sobrevive graças a proteção e ajuda de um homem – no primeiro momento o caçador, e depois o príncipe, que a ressuscita com um beijo. Traz o paradigma da mulher enquanto sexo frágil, que necessita de proteção do homem. Este paradigma acaba por implicar em uma hierarquia, no qual a mulher está em desvantagem. Afinal, é apenas quando o príncipe aparece em sua vida, se apaixona – porque ela é a mulher mais bela do mundo, segundo o próprio espelho mágico e, por isso, merece ser amada – e casa-se com Branca de Neve, que esta tem a oportunidade de ser feliz realmente. A princesa não poderia jamais ser feliz sozinha, e o príncipe, o homem, é sua garantia de uma vida feliz para sempre. Isto se repete também na Cinderela, onde príncipe aparece para tirá-la de sua situação de escravidão uma vez que, sozinha, esta não teria autonomia para superar esta adversidade.

Bela Adormecida:
Para mim, o exemplo mais forte de falta de autonomia. A princesa permanece por cem anos – CEM ANOS! – esperando pelo príncipe que a salvaria. E mais uma vez, quando é salva por este, tem sua garantia de uma vida feliz para sempre.

A Bela e a Fera:
O expoente do machismo e dos valores duvidosos. Primeiramente, Bela é entregue à Fera como castigo pelo mal comportamento do pai, ou seja, Bela é praticamente negociada tal como uma propriedade de seu pai. Bela se apaixona pela Fera, embora só fique realmente com este quando há uma transformação – e a Fera passa a ser um belo príncipe. Para mim, este conto de fadas é o mais comprometido com o paradigma do belo e bom. O tiro mais bem mirado na auto-estima das crianças.
Alguns podem acreditar que eu sou uma feminista louca e generalista. E assumo – talvez haja sim algum exagero em minha descrição – embora alguma verdade está também certamente contida. Tenho um certo gosto por tradições, mas acima disto, acredito que estas devem ser sim deixadas de lado quando notado que alguns valores já não são mais bem-quistos. As mulheres conquistaram seu espaço, sua autonomia e seu valor – que vai muito além da beleza física. E alguns contos também conquistaram novas formulações - mais adequadas e direcionadas à igualdade. O exemplo maior disto, para mim, é Sherek, releitura de A Bela e a Fera em que a princesa é que passa a ser fera, em uma história marcada pela valorização do diferente, que nem sempre é o mais belo, mas nem por isso perde.

