quinta-feira, 28 de junho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Sobre Problemas complexos, competências comportamentais e porque o inferno são os outros
Segundo Adam
Kahane, problemas complexos são aqueles que são:
-Dinamicamente
complexos, ou seja, suas causas e efeitos estão afastados no tempo e no
espaço, de modo que são difíceis de compreender com base na experiência direta.
- Generativamente
complexos, ou seja, se desdobram de forma desconhecida e imprevisível e
- Socialmente
complexos, ou seja, problemas em que as pessoas envolvidas tendem a ter
percepções muito diferentes da situação, polarizando e emperrando o processo de
solução.
Kahane conhece bem
este tipo de problemas: já atuou como facilitador de discussões entre
pensadores, políticos, empresários e militantes durante a guerra civil da
Colômbia, a crise econômica de 2001 da Argentina, o período de pós-guerra civil
da Guatemala, o período pós-apartheid na África do Sul, sem falar de Israel,
Irlanda do Norte, Chipre e País Basco.
Em seu livro “Como Resolver Problemas Complexos”,
Kahane apresenta sua experiência em uma narrativa bastante envolvente, e aponta
alguns caminhos para a solução destes problemas: falar e escutar de forma
aberta, e criar um “diálogo generativo”.
Fica evidente nas histórias a dificuldade em conciliar lados
tão opostos de uma mesma realidade, especialmente quando esta envolve um
histórico de conflitos armados e mesmo mortes de entes queridos. E fica
especialmente evidente que o fazer de forma eficaz envolve muita inteligência.
Não a inteligência lógico-racional, mas inteligência emocional.
O conceito de
inteligência emocional, surgido em 1985, tem como principal teórico, Daniel Goleman. O
conceito refere-se à "capacidade de
identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e
de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos."
(Goleman, 1998), e tem ganhado cada vez
mais destaque, especialmente no que diz respeito ao contexto das organizações.
Não é para menos! Segundo os estudos de Goleman, 90% da diferença entre as pessoas que
obtém grande sucesso pessoal e profissional, e aquelas com desempenho apenas
mediano, se devem a fatores relacionados a competências comportamentais, mais
do que às habilidades aprendidas na escola!
É claro que as universidades ainda não são hoje responsáveis
por desenvolver estas habilidades. Ao contrário, empurram para o mercado jovens
entupidos de conceitos teóricos, mas pouca ou nenhuma habilidade para lidar com
os desafios da convivência pessoal. Aprendem muito sobre o processo, mas o processo não ocorre e a técnica não é coloca em prática sem as pessoas!
Se as competências comportamentais são tão importantes para
o sucesso, porque não desenvolvemos caminhos para desenvolvê-las? Por que não
nos preocupamos com elas tanto quanto nos preocupamos em adquirir um diploma
universitário?
A resposta? Porque lidar com pessoas é um saco! É, é isso
mesmo! Lidar com pessoas é chato, desgastante e muitas vezes frustante. E não
confiamos muito no nosso taco para isso!
Segundo a Análise do
Comportamento, a auto-confiança está ligada à probabilidade de produzir reforçadores,
ou de forma simplificada, conseqüências positivas. Assim, você se sente
confiante diante das situações em que tem (ou acreditar ter) maior
possibilidade de conseguir o resultado desejado.
Extrapolando, acredito que não seja exagerado dizer que a
maioria das pessoas sente-se mais confiante diante de tarefas que exigem
competências técnicas do que aquelas que exigem competências comportamentais.
Você estuda a matéria, e então responde questões sobre ela
em uma prova. Você faz aulas práticas de direção, e depois deve dirigir com um
avaliador sentado a seu lado. Essas são com certeza situações ansiógenas para
todos. Mas guardam um elemento de consolo: é possível ter boa previsibilidade
sobre o que vai ocorrer no dia do teste. É possível treinar muitas vezes, e a
cada vez que se treina, se adquire mais competência, e conseqüentemente,
aumenta-se a probabilidade de ir bem no teste.
E nas situações sociais? Imagine que você precisa fazer uma
palestra para um público bastante exigente, pedir aumento a seu chefe ou
conhecer a família do novo namorado.
Podemos até buscar informações sobre as pessoas antes, na tentativa de
nos prepararmos melhor, mas com certeza nosso poder de previsibilidade é muito
menor do que em situações que exigem quase somente competências técnicas. E se
é possível treinar antes, seja com um amigo, seja na frente do espelho, o
treino será provavelmente bem menos real do que fazer provas de simulado ou
provas práticas de direção. Não adianta, pessoas
são imprevisíveis!
A probabilidade de
você se preparar e treinar muito para uma conversa e não alcançar os resultados
esperados é muito maior do que a de você se estudar com afinco e não atingir
uma boa pontuação em uma prova. Daí vem a frustração e a diminuição da
autoconfiança diante de outras situações parecidas. E vem também nosso
interesse maior em buscar as competências técnicas, com resultados mais
“garantidos” do que as comportamentais...
Mas apesar de tudo, há um trunfo nas competências
comportamentais: uma vez desenvolvidas, seu poder de generalização é muito
maior. Não importa que você tenha estudado muito para geografia e tenha
alcançado ótimas notas: para ir bem na prova de história, terá que estudar
muito também. Claro que há certa interdisciplinaridade, mas no geral, competências
técnicas tendem a ser muito mais específicas do que as comportamentais. Se você
tem facilidade para discutir música com seus amigos, provavelmente não terá
problemas para discutir negócios em sua empresa. Se você aprende a controlar
sua frustração quando algo no trabalho não dá certo, provavelmente lidará
melhor com este sentimento quando seu namorado atrasar. Uma vez desenvolvida
uma habilidade, ela pode ser empregada em todos os contextos.
Claro que isto não é uma regra: é possível ser uma pessoa muito
assertiva com colegas de trabalho, mas essencialmente agressivo em casa. Mas,de
forma geral, acredito que estamos passando por uma grande revolução nas
organizações, para novos tempos em que indivíduos emocionalmente inteligentes
serão valorizados,em que problemas complexos serão resolvidos muito mais por
meio do diálogo aberto do que de análises numéricas frias, que as pessoas serão
mais importantes do que as técnicas. Novos tempos em que excelentes profissionais serão também inevitavelmente indivíduos
admiráveis!
Vale a pena esperar pra ver!
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