quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Cacos de vida




O trabalho do poeta é justamente o de gerar uma idéia, fragmentá-la e esconder alguns destes preciosos cacos em palavras sublimes e musicais, oferecidas de graça a todos que encontrem prazer em reuni-los todos, colando-os uns aos outros, numa atividade paciente e infinita.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Vilão ou Mocinho?

Steven Pinker, em “Como a Mente Funciona”, afirma que “ninguém pode examinar as emoções sem ver nelas a fonte de muitas tragédias humanas”. De fato, a maioria das reações desagradáveis, dos sofrimentos humanos e das motivações para as mais “sinistras” ações são respostas emocionais. Isso porque nossos instintos foram moldados para atender ao propósito único de aumentar as chances de propagação de cópias dos nossos genes. Mesmo que isto implique proporcionar infelicidade ou incapacidade de compreensão ao indivíduo que os detém.


Dentre todos os infortúnios oriundos do processamento emocional, Pinker destaca o auto-engano. Segundo ele, o auto-engano “faz com que nos julguemos corretos quando estamos errados e nos encoraja a lutar quando deveríamos nos render”

O auto-engano seria, pois, um enorme empecilho à capacidade de compreensão humana, uma vez que confunde a nossa noção de realidade. Assim, o senso próprio do indivíduo de moralidade e de justiça deixa-se esculpir por diversas situações, e fica vulnerável a influência de ideologias, crenças e desejos próprios a este indivíduo.

O resultado é que “na vida real, os vilões estão convencidos de sua integridade”. Não há quem faça julgamento de si mesmo com um ser perverso ou tirano. Todas as nossas ações e pensamentos têm um propósito claro e justo a nossos olhos, por mais que possam parecer absurdos aos olhos de outros. Se Hitler foi um ator, concluiu um biógrafo, “foi um ator que acreditou no seu papel”


Estendendo um pouco a provocação, acredito que, como sugere Ilana Casoy, esta falta de percepção para o “mal” que existe em nós é talvez a maior motivação para o nosso fascínio pela violência. Segundo a autora de “Serial Killer: Louco ou Cruel?”,a crueldade dá ibope porque leva a uma identificação indesejada e por vezes até não aceita. “Você fica desesperadamente falando no assunto para tentar provar que o outro é um psicopata, frio, calculista, cruel, bem diferente de você. É preciso distanciá-lo do que nós somos”, diz a autora.


Mas a maior provocação que o argumento do auto-engano pode causar refere-se à questão da justiça. Se todos estamos presos a uma visão pouco objetiva dos fatos, qual a validade dos critérios que distinguem um crime e condenam uma pessoa?
Mais uma vez a complexidade da mente nos traz a resposta. E Steven Pinker encerra o assunto dizendo:

“Ainda assim, graças à complexidade de nossa mente, não precisamos ser eternamente logrados por nossas próprias trapaças. A mente possui muitas partes, algumas moldadas para a virtude, outras, para a razão, algumas espertas o bastante para levar a melhor sobre as partes que não sejam nem uma coisa, nem a outra. Um eu pode enganar outro, mas de vez em quando um terceiro eu vê a verdade”

E através da visão de terceiros eus, tecem-se os princípios universais de moralidade.



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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Como a mente funciona?


A arte de capa simples e direta realmente não é muito convidativa. Tampouco o são as 666 páginas que a recheiam. Mas o título é tão presunçoso, e até mesmo arrogante, que não há como não se sentir atraído a lê-lo. E a descobrir, a cada página, que toda a arrogância que o título exala tem motivo.

Já no início, Steve Pinker admite a presunção do título, discorrendo sobre os grandes avanços obtidos pela Psicologia e a Neurologia, o que possibilitou elevar diversos aspectos da mente à categoria de problemas, enquanto outros ainda permanecem como mistérios. De fato, as vinte e oito páginas dedicadas à referências bibliográficas já demonstram a abrangência e o caráter atual do livro. “Como a Mente Funciona” é, sem sombra de dúvida, o livro mais abrangente, interessante e instigante sobre a mente humana que já tive a oportunidade de ler.

Valendo-se da Teoria computacional da mente, segundo a qual “a força vital da psique é a informação e não a energia”, e da moderna teoria da evolução, que “requer a engenharia reversa do design complexo de sistemas biológicos”, com uma influência marcante de Richard Darwkins, Steven Pinker lança luz a uma infinidade de questões relacionadas à psique humana, trazendo questionamentos profundos e argumentações sempre muito bem baseadas e estruturadas, de uma forma fácil e agradável, além de bem-humorada.

O livro discorre sobre uma grande diversidade de aspectos psicológicos, desde o funcionamento de mecanismos cerebrais, até emoções complexas como culpa e luto, passando por mecanismos de percepção e a atração sexual, na tentativa de explicar o funcionamento da mente humana.


E não unicamente explicar como a mente funciona, mas o porquê dela funcionar assim e as conseqüências disso para a sociedade.O resultado desta abordagem são explicações para a maioria dos fenômenos sociológicos, psicológicos e criminológicos com que convivemos

Assim, cada aspecto, mecanismo, comportamento, crença e desejo humano é esmiuçado e questionado, sendo apresentado o conhecimento acumulado a seu respeito, sem nunca, porém, esgotar a questão. E este é talvez o maior crédito do livro. Apresentar um direcionamento confiável sem trazer afirmações absolutas e acabadas

Há ainda uma outra qualidade do livro que chama muito a atenção. A capacidade de despertar em pessoas comuns como eu, questionamentos essencialmente científicos, trazendo um olhar objetivo sobre o funcionamento da mente humana.

E no desfecho, um capítulo com um título tão presunçoso quanto o que vem com letras garrafais na capa: O Sentido da Vida. Steven Pinker fecha “Como a Mente Funciona” com chave de ouro ao questionar tudo aquilo que é considerado nobre e digno de admiração, embora biologicamente frívolo e vão: a arte, a religião e a filosofia.

Simplesmente me apaixonei por “como a mente funciona” e recomendo o livro a todos que se sentem atraídos pelos segredos da mente. Se você, como eu sentiu-se curioso ao ler o título nessa capa desprovida de cor e sem graça, não tenha duvídas, vá em frente. Garanto que não vai se arrepender!