segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Vilão ou Mocinho?

Steven Pinker, em “Como a Mente Funciona”, afirma que “ninguém pode examinar as emoções sem ver nelas a fonte de muitas tragédias humanas”. De fato, a maioria das reações desagradáveis, dos sofrimentos humanos e das motivações para as mais “sinistras” ações são respostas emocionais. Isso porque nossos instintos foram moldados para atender ao propósito único de aumentar as chances de propagação de cópias dos nossos genes. Mesmo que isto implique proporcionar infelicidade ou incapacidade de compreensão ao indivíduo que os detém.


Dentre todos os infortúnios oriundos do processamento emocional, Pinker destaca o auto-engano. Segundo ele, o auto-engano “faz com que nos julguemos corretos quando estamos errados e nos encoraja a lutar quando deveríamos nos render”

O auto-engano seria, pois, um enorme empecilho à capacidade de compreensão humana, uma vez que confunde a nossa noção de realidade. Assim, o senso próprio do indivíduo de moralidade e de justiça deixa-se esculpir por diversas situações, e fica vulnerável a influência de ideologias, crenças e desejos próprios a este indivíduo.

O resultado é que “na vida real, os vilões estão convencidos de sua integridade”. Não há quem faça julgamento de si mesmo com um ser perverso ou tirano. Todas as nossas ações e pensamentos têm um propósito claro e justo a nossos olhos, por mais que possam parecer absurdos aos olhos de outros. Se Hitler foi um ator, concluiu um biógrafo, “foi um ator que acreditou no seu papel”


Estendendo um pouco a provocação, acredito que, como sugere Ilana Casoy, esta falta de percepção para o “mal” que existe em nós é talvez a maior motivação para o nosso fascínio pela violência. Segundo a autora de “Serial Killer: Louco ou Cruel?”,a crueldade dá ibope porque leva a uma identificação indesejada e por vezes até não aceita. “Você fica desesperadamente falando no assunto para tentar provar que o outro é um psicopata, frio, calculista, cruel, bem diferente de você. É preciso distanciá-lo do que nós somos”, diz a autora.


Mas a maior provocação que o argumento do auto-engano pode causar refere-se à questão da justiça. Se todos estamos presos a uma visão pouco objetiva dos fatos, qual a validade dos critérios que distinguem um crime e condenam uma pessoa?
Mais uma vez a complexidade da mente nos traz a resposta. E Steven Pinker encerra o assunto dizendo:

“Ainda assim, graças à complexidade de nossa mente, não precisamos ser eternamente logrados por nossas próprias trapaças. A mente possui muitas partes, algumas moldadas para a virtude, outras, para a razão, algumas espertas o bastante para levar a melhor sobre as partes que não sejam nem uma coisa, nem a outra. Um eu pode enganar outro, mas de vez em quando um terceiro eu vê a verdade”

E através da visão de terceiros eus, tecem-se os princípios universais de moralidade.



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