sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Felicidade: Linha Reta ou Círculo?

Como toda ocidental, eu também sempre imaginei a felicidade como um caminho a ser trilhado. Talvez, até mais do que trilhado, um caminho a ser conquistado, batalhado. Quem nunca leu mensagens Power Point que tratam da felicidade como tal? Você deve almejar, lutar, passar por obstáculos para que, enfim, possa alcançar a tão aclamada felicidade. Felicidade traduzida - ao menos para os mais tradicionais - em estabilidade financeira, casamento, filhos, casa nova, carro na garagem. Uma felicidade estável e duramente conquistada.



Esta imagem estava tão cristalizada em minha mente que me impressionei a ler sobre o conceito oriental de felicidade. Longe do nosso conceito linear, os orientais atentam-se muito mais para a existência de ciclos no decorrer da vida. Os altos e baixos são considerados como inerentes à existência humana, de modo que adaptar-se a este ritmo, encontrando sentido em cada alto e baixo é o grande objetivo almejado. Fazer com que o processo de mudança se torne natural seria o correspondente a alcançar a felicidade.



O equilíbrio entre emoções positivas e negativas, situações adversas e prazerosas - ilustrado na imagem do Yin/Yang, ou mesmo no provérbio chinês "A boa sorte pode anunciar uma desventura, a qual, por sua vez, acaba por revelar uma boa sorte" corresponde a esta idéia de felicidade. E, talvez, revele uma noção muito mais realista e adaptativa da existência humana. Nem uma felicidade completa, nem um caminho de pedras, a felicidade oriental está em se adequar ao que a vida traz, dançar conforme a música e extrair experiências positivas e sentido de cada situação. A busca pelo equilíbrio e o bom manejo em situações adversas. Um conceito mais difícil de seguir, por envolver crescimento pessoal e esforço, mas muito provavelmente, de maior capacidade de imprimir satisfação, significado e valor à vida - peças-chave para a felicidade.


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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Uma Breve História... de Tudo!



Li recentemente "Uma Breve História do Mundo" e recomendo. Um livro fantástico - e bastante audacioso! Imagine concentrar toda a história da humanidade em pouco mais de 300 páginas! É isto que Geoffrey Blainey - Professo de historia de Havard - se propôs - alcançou. Escreveu um livro essencial para quem quer entender mais sobre a história da humanidade, de uma forma descontraída, mas que nem por isto perde sua profundidade.

A narrativa leve e cativante leva o leitor a uma retrospectiva da vida do homem na terra, começando com a vida difícil e perigosa dos primeiros hominídeos, passando por suas primeiras grandes migrações e inventos. A riqueza e detalhes é tão grande que em diversos momentos é possível mesmo imaginar-se na pele destes homens primitivos, mestres na arte de sobreviver.

A história se desenrola, e sutilmente percebemos o homem moderno tomando forma. E mais do que isto, é possivel mesmo perceber o surgimento do mundo como o conhecemos hoje. A geografia dos povos, as invenções e descobertas, e até mesmo as transformações geográficas, ambientais e climáticas: todos estes processos são descritos de uma forma vertiginosa, com aquela pitada especial de "tudo ao mesmo tempo".

Mas, muito além da forma, para mim o maior trunfo de "Breve História do Mundo" está em seu conteúdo: a nararativa rompe definitivamente com o modelo de história etnocêntrico a que estamos acostumados. Civilizações modelo, tais como a grega e a romana não merecem maior destaque do que os aborígenes australianos. A sensação é de captar, por fim, uma versão fiel da história do homem.

Além disso, a história toda parece narrada sob o ponto de vista de homens de carne e osso. Os acontecimentos históricos e os rótulos perdem seu sentido frente a exploração do cotidiano dos seres humanos ao longo da história: seu modo de pensar, agir, enfim, seu modo de sobrevier e trazer sentido à própria vida. Formidável!



Vale a pena ler!


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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

É rara

É rara! É a vida. Um sopro, veloz, loquaz e repentino. É hoje, é agora! É a vida que explode, que clama, que é. Simplesmente é.

É tempo. É tempo que acontece, que aparece de repente. E tão repentina e misteriosamente quanto chega, vai, corre, arrasta. Suga as almas,não espera. Inexorável e inatingível desafia: fita-nos decididamente e debocha "Você não pode me parar". "Você não pode me deter".

Inflexível e tirano. Não perdôa e não acolhe. Regozija-se apenas com seu poder. Seu poder de conceder e de obrigar. Seu poder de ser supremo e indispensável. Mas acima de tudo, seu poder de dar fim, ceifar com um só golpe as almas que arrasta...

...Para então continuar sua corrida eterna, apesar de tudo linda e sobretudo sem sentido.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Não conte contos de fadas para seus filhos

Não conte contos de fadas para seus filhos. Eles são machistas e trazem implícitos valores no mínimo polêmicos.
Esta foi a conclusão que cheguei após uma pequena análise dos principais contos de fada. Para mim, eles podem parecer inocentes, mas trazem muitos valores implícitos que não compartilho. Você duvida? Pois passemos então a descrição de cada um:



Cinderela:
Só por ser um conto de princesa, já traz valores machistas. Afinal, toda história que envolva um “amor a primeira vista” traz –a meu ver - esta carga agregada. Isso porque a paixão e o encantamento do príncipe à Cinderela devem-se – tão e somente – a beleza desta, de modo que se tem a associação entre o belo e o bom e abre-se margem para a crença de que só quem é belo merece ser amado. Um tiro na auto-estima das meninas. Além disso, dentre as clássicas princesas Disney, todas são magras e a maioria tem pele clara – exceto a Jasmine do Aladin - e olhos claros também. Ou seja, uma grande parte das garotas não se identifica com este padrão, de modo que temos mais um tiro em sua auto-estima.



Branca de Neve:
Novamente, o único valor da princesa deve-se ao fato de ser bela. E só. Branca de Neve revela-se uma garota frágil e inocente, sendo facilmente enganada pela bruxa, de modo que só sobrevive graças a proteção e ajuda de um homem – no primeiro momento o caçador, e depois o príncipe, que a ressuscita com um beijo. Traz o paradigma da mulher enquanto sexo frágil, que necessita de proteção do homem. Este paradigma acaba por implicar em uma hierarquia, no qual a mulher está em desvantagem. Afinal, é apenas quando o príncipe aparece em sua vida, se apaixona – porque ela é a mulher mais bela do mundo, segundo o próprio espelho mágico e, por isso, merece ser amada – e casa-se com Branca de Neve, que esta tem a oportunidade de ser feliz realmente. A princesa não poderia jamais ser feliz sozinha, e o príncipe, o homem, é sua garantia de uma vida feliz para sempre. Isto se repete também na Cinderela, onde príncipe aparece para tirá-la de sua situação de escravidão uma vez que, sozinha, esta não teria autonomia para superar esta adversidade.



Bela Adormecida:
Para mim, o exemplo mais forte de falta de autonomia. A princesa permanece por cem anos – CEM ANOS! – esperando pelo príncipe que a salvaria. E mais uma vez, quando é salva por este, tem sua garantia de uma vida feliz para sempre.



A Bela e a Fera:
O expoente do machismo e dos valores duvidosos. Primeiramente, Bela é entregue à Fera como castigo pelo mal comportamento do pai, ou seja, Bela é praticamente negociada tal como uma propriedade de seu pai. Bela se apaixona pela Fera, embora só fique realmente com este quando há uma transformação – e a Fera passa a ser um belo príncipe. Para mim, este conto de fadas é o mais comprometido com o paradigma do belo e bom. O tiro mais bem mirado na auto-estima das crianças.


Alguns podem acreditar que eu sou uma feminista louca e generalista. E assumo – talvez haja sim algum exagero em minha descrição – embora alguma verdade está também certamente contida. Tenho um certo gosto por tradições, mas acima disto, acredito que estas devem ser sim deixadas de lado quando notado que alguns valores já não são mais bem-quistos. As mulheres conquistaram seu espaço, sua autonomia e seu valor – que vai muito além da beleza física. E alguns contos também conquistaram novas formulações - mais adequadas e direcionadas à igualdade. O exemplo maior disto, para mim, é Sherek, releitura de A Bela e a Fera em que a princesa é que passa a ser fera, em uma história marcada pela valorização do diferente, que nem sempre é o mais belo, mas nem por isso perde.

terça-feira, 2 de março de 2010

Reciclagem de vida

É fato que os estilos musicais predominantes de cada época compõe um ciclo. Um estilo musical mais agressivo é sucedido por um mais calmo, o qual será novamente sucedido por um estilo agressivo, por exemplo. É fato também que este ciclo não se realiza de forma rígida e que possa ser temporalmente especificada. Dentro dele há muito espaço pra inovação. Novos instrumentos, combinações inéditas, letras diferenciadas. Afinal, os tempos são outros e os estilos musicais também o são. E, embora sempre se grite aos quatro cantos que estamos vivendo uma nova era, ao final descobrimos que este novo som guarda profundas semelhanças com o início do ciclo.



Acredito que assim também é a vida. Que vivemos por reinventar nossa forma de ser, seja no campo profissional, afetivo, social ou espiritual. E não nessa ordem, muito menos ao mesmo tempo. A cada fase de nossa vida, resgatamos um pouco de nosso passado, um pouco do que já fomos, e o trazemos a tona totalmente restaurado. Somos diferentes, mas ainda somos os mesmos. Porque os conceitos, as imagens e as atividades não mudam, mas muda o nosso olhar sobre elas, muda nossa forma de pensar e agir sobre elas. Afinal, há sempre espaço para a inovação neste ciclo.



Já ouvi histórias de pessoas que lêem, de tempos em tempos, um mesmo livro. E o fazem pelo prazer de saber que, apesar de as palavras serem exatamente as mesmas, o sentido que o livro adquire a cada ano é sempre novo. E que este novo sentido sempre diz muito sobre elas.
Ainda não adquiri este hábito, mas acredito que pude sentir algo próximo a isto quando, esta semana, reencontrei duas antigas paixões. O primeiro reencontro aconteceu ao ler o livro "Pra Ser Sincero: 123 Variações sobre um mesmo tema", em que Humberto Gessinger fala sobre a banda Engenheiros do Hawaii, minha obsessão de adolescência. O segundo, foi ao sentir o contato do pincel com tinta a óleo misturada a óleo de linhaça na tela, e experimentar novamente aquele cheiro familiar.

Certamente, a sensação não é a mesma de anos atrás. As letras de Gessinger já não são mais obsessão, mas apreciadas como boa música. Na ponta do pincel, há muito menos pretensão e mais paciência. Mas apesar de tudo, algo persiste. Talvez apenas o aconchego de lidar com o familiar. Talvez, a boa sensação de acreditar em uma identidade estável para mim mesma. Ou, quem sabe, o prazer de sentir que mais uma vez o ciclo recomeça...

E pra finalizar, vou plagiar Gessinger:

Reencontrar prazeres antigos fica na esquina entre a saudade e a vontade de inovar. Um bom lugar para se conhecer.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ilusão em cápsulas



Richard Dawkins é um ícone do ceticismo. Seus livros impressionam pela atitude corajosa de falar sobre tabus de forma absurdamente direta.

Neste documentário - o Serviço Irracional de Saúde - Richard Dawkins realiza uma ótima reflexão sobre a medicina alternativa, e o fato de que esta vem ganhando cada vez mais adeptos ao redor do mundo, enquanto a medicina tradicional tem sido olhada com certa desconfiança. Dawkins fala sobre os perigos de realizar esta troca, além de atentar para as diversas incongruências apresentadas por métodos de curas alternativos, que se apropriam de expressões e conceitos científicos - de forma errônea, diga-se de passagem - para fornecer tratamentos sem prova ou fundamento algum - e o que é pior, sem nenhuma eficácia.

"Devemos manter a mente aberta, mas não a ponto de esvaziar nossos cérebros!" - Richard Dawkins

Vale [muito] a pena assistir!


Continuação:

Parte 2:
http://www.youtube.com/watch?v=1oh9K-eDu4E&feature=related
Parte 3:
http://www.youtube.com/watch?v=FiTbuUNbIRY&feature=related
Parte 4:
http://www.youtube.com/watch?v=Kn8Hva8BPfs&feature=related
parte 5:
http://www.youtube.com/watch?v=Ani8KQggYBk&feature=related

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sustentável é pouco

Absolutamente não simpatizo com a revista Vejo. Sua parcialidade e sensacionalismo me irritam profundamente. Mas, como boa curiosa que sou, não consegui deixar de folheá-la essa semana. Por acaso esbarrei, já nas primeiras páginas, com um trecho da coluna sobre sustentabilidade de Denis Russo, ex-editor chefe da Revista Super Interessante. O trecho falava sobre a vantagem da mudança para hábitos mais sustentáveis. E como boa eco-chata que sou também, acabei acessando a coluna na internet para ler o texto por completo.



E fiz bem. Denis Russo consegue, como poucos, falar sobre sustentabilidade sem tornar este um assunto enfadonho, sensacionalista e com pitadas de "o fim do mundo está próximo!". Ao invés das tradicionais dicas para economizar água, vemos discursos sobre o panorama mundial, reflexões sobre as mudanças que já estamos vivendo e aquelas que ainda estão por vir, além de comparações inteligentes com o passado. Tudo isso sem falar sobre alguns textos de caráter mais pessoal, como o relato da viagem ao Chile. Sensacional!

Denis Russo nos mostra que o assunto "sustentabilidade" é muito mais amplo do que as dicas sobre como economizar água. Ele nos mostra o quanto a economia, a psicologia e a história estão envolvidas nesta trama, e o quanto um estilo de vida sustentável está relacionado a profundas transformações em diversas estruturas que sustentam o mundo como o conhecemos hoje. Embora tais transformações já estejam em curso, e temos motivo para comemorar por isso. Afinal, Denis Russo deixa sempre aquele gosto de otimismo ao final de cada post.

Vale a pena ler!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Para os futuros colegas de profissão

Uma seleção de tiras que só os psicólogos (e futuros psicólogos) vão entender:







Tirei daqui







quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

De psicólogo e louco todo mundo tem um pouco

Me lembro muito bem da minha primeira aula de Psicologia Geral.
O professor pediu que nos reuníssemos em grupo e distribuiu entre nós uma folha com diversas questões cotidianas relacionadas a psicologia, como por exemplo, uma pergunta sobre os motivos que levam um estudante a entrar em uma escola/universidade armado e atirar em seus próprios colegas.

Pois bem. Em poucos minutos todos tínhamos em mãos uma grande quantidade de respostas. E muita convicção acerca de sua validade.

Meu professor passou então a ouvir atentamente todas as opiniões. E quando achávamos que iria nos dar as respostas, ele nos surpreendeu. Nos surpreendeu ao mostrar que absolutamente não havia resposta correta para nenhuma das questões propostas. E, no entanto, nós - recém saídos do vestibular - acreditávamos que poderíamos dizer muito sobre o assunto. Ledo engano!

Enfim, o sentido do exercício foi mostrar que, por lidar com fatores cotidianos, a Psicologia está sujeita a ter suas questões analisadas pelo senso comum. O resultado disso, é que quase todos nós acreditamos ser um pouco psicólogos e que nossa opinião é válida, sim, para a resolução destes problemas - afinal, vivenciamos muito deles!

Pois quando o assunto é física quântica, botânica ou mesmo genética nenhum leigo se arrisca a dar um pitaco. No entanto, no que diz respeito a questões de Psicologia - que, justiça seja feita, são tão complexas quanto, ou até mesmo mais complexas do que, questões de física quântica, botânica ou genética - todos acreditamos ter uma resposta na ponta da língua - e não só acreditamos como defendemos essa opinião (e - diga-se de passagem - a maioria dos jornalistas, apresentadores ou mesmo celebridades babacas não deixam de o fazer em veículos de massa).

Eu realmente amo ser estudante de Psicologia. Mas odeio quando, em uma conversa casual, cito algum conhecimento desta disciplina e alguém diz: "Não acho" ou "Não é assim", como se o tópico fosse questão de opinião ou achismo.

Não acredito que psicólogos nunca devam ser contrariados. Afinal, há uma extensa gama de questões em aberto dentro da Psicologia e mesmo pontos em que há discordância entre diferentes teorias. No entanto, há também muito conhecimento consagrado por anos de pesquisas com provas empíricas e resultados consistentes. E estes achados devem ser respeitados, tal qual o conhecimento em física, botânica ou genética!

Não se criam físicos, botânicos ou geneticistas sem anos de estudo e leitura. Como também não se criam psicólogos. E por isso, nós psicólogos, merecemos respeito sim. Afinal, nos baseamos em anos de estudo e pesquisa empírica e não na conversa da vizinha.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Poema em prosa

"Budapeste, no exato momento em que termina, transforma-se em poesia."José Miguel Wisnik

Acredito que não há melhor forma de se descrever a sensação que fica ao final de "Budapeste" de Chico Buarque.
Sim, confesso que fiquei realmente apaixonada pelos seus livros, e por este senti alguma atração ainda mais especial.

O enredo leve e delicioso é carregado de metáforas inteligentes e inesperadas, bem como o são os relatos de pensamentos e sentimentos do personagem José Costa. Aliás, o inesperado é elemento constante no livro. A história é repleta de reviravoltas, reencontros, partidas e chegadas
de modo que é gerado diante dos leitores um personagem em dúvida com relação a própria identidade. Um personagem completamente dividido entre dois países, duas línguas, dois lares, duas mulheres.

Aliás, é esta crise o ponto forte do livro, capaz de trazer questionamentos acerca de nossa própria noção de identidade e - por que não? - individualidade. Afinal, o que nos define? Somos pessoas diferentes em contextos diferentes? É possível ter duas identidades?

Seja por esta provocação, seja pelo simples gosto pela literatura:
Vale a pena ler!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Controlabilidade

Não há absolutamente nada mais irritante para uma criança do que uma mãe decidindo o que ela vai vestir, comer, fazer e falar. Não, definitivamente não há nada mais irritante do que uma mãe controlando cada ação de seu filho. E pior quando o faz acreditando piamente que é pelo bem dele.

Pois bem. Discutamos o caso.


Há tempos é conhecida pela psicologia a necesidade de autoafirmação de cada sujeito, bem como a necessidade de sentir-se no controle de sua própria vida. Esta última mostra-se imprescindível para o bom funcionamento psicológico do indivíduo, uma vez que um esquema de pensamento marcado pela impressão de não possuir controle sobre os acontecimentos cotidianos está intimamente relacionado a sentimentos depressivos. A ligação é clara: se não há controle sobre a própria vida, qualquer problema se transforma em uma desgraça, ao mesmo tempo em que as conquistas são frequentemente atribuídas a sorte ou acaso.

Em um clássico experimento, foi introduzida na vida de um grupo de idosos residentes em um asilo algum grau de controle sobre sua rotina. Assim, permitiu-se que estes escolhessem a data em que gostariam de assistir a um filme e também uma planta para cuidarem. Parece coisa boba, mas esta pequena mudança foi capaz de reduzir em 50% o índice de mortalidade entre esta população, em comparação a seus colegas que não tiveram esta oportunidade de escolha. A controlabilidade realmente faz bem a nossa psique!
Mas além de melhor adaptação psicológica, estou convencida de que a capacidade e a motivação para fazer escolhas referentes a própria vida também pode estar relacionada a outras características positivas, especialmente no que diz respeito ao ambiente escolar.



Estudos mostram que crianças cuja grade escolar é mais flexível tendem a apresentar maiores índices de criatividade, além de motivação para desempenhar tarefas escolares. No entanto, a quase absoluta maioria das escolas investe em grades rígidas e extremamente desmotivadoras. As tarefas escolares inevitavelmente são encaradas enquanto obrigações, cujo valor nem sempre é compreendido pelos estudantes. Cerca de doze anos de vida escolar são necessários para que, enfim, possa-se ter algum controle sobre o próprio aprendizado. Seja pela escolha do curso em si, seja pela própria flexibilidade inerente, a faculdade finalmente representará a oportunidade de reflexão sobre os próprios interesses e desejos profissionais e as primeiras oportunidades para o estudo e leitura por prazer, não obrigação.

Não sou anarquista, nem acredito que devemos deixar as crianças entregues a sua própria vontade. No entanto, prezo por uma maior liberdade e oportunidade de fazer escolhas! Acredito que o ato de optar é também um comportamento a ser aprendido, e como tal deve ser praticado desde tenra idade. Pois a capacidade e a motivação para fazer escolhas é também, acima de tudo, garantia de independência e boa adaptação, seja ela pessoal ou profissional.


Vale a pena pensar sobre








sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pérola feminista

Para mulheres que gostam de tiras, o blog Prycila Freeakomics é um prato cheio!


O blog usa e abusa da ironia, de modo a incutir um feminismo ácido em tiras de humor leve. E haja ironia! O que você esperava de histórias cuja personagem principal é uma boneca inflável culta e feminista?
Uma pérola entre os blogs de humor essencialmente machistas!

Vale a pena visitar!




quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Não chore por ele

O talento musical de Chico já foi largamente constatado e aclamado - por gerações, diga-se de passagem. Suas letras trazem uma sensibilidade estonteante, pois Chico soube traduzir como poucos a alma humana - em suas grandezas, mas especialmente em sua mesquinhez.

Como já devem ter percebido, sou mais uma integrante fanática de sua legião de fãs, absolutamente apaixonada pelo ato de vasculhar suas canções em busca de mensagens nas entrelinhas - sejam críticas políticas ou metáforas românticas. No entanto, confesso que tive um certo receio de encontrar o Chico Buarque escritor - e não obter o mesmo prazer em vasculhar seus romances.


Percebi meu engano já na primeira página de "Leite Derramado".


Que me perdoem os críticos literários, mas lendo-o, senti um mesmo prazer pela leitura que não sentia a algum tempo - desde que resolvi ler um outro livro de capa laranja flourescente - Dom Casmurro de Machado de Assis.


Leite Derramado é o monólogo de idoso moribundo. Seu relato é constante - não há um parágrafo sequer, como se não houvesse tempo para pausas - embora nada regular - a cronologia perde o sentido em sua fala. As lembranças se confundem, sobrepõem, repetem e se esvaem, em uma narrativa carregada de ironia nas entrelinhas.
O pano de fundo é a decadência da família Assumpção - com "p" mudo, como a personagem Eulálio faz questão de enfatizar por demonstrar sua ascendência nobre. As memórias trazem então imagens de tempos prósperos com banquetes extraordinários e convidados ilustres, lembranças da ex-mulher Matilde e sua beleza marcadamente morena, bem como desgostos da imundície da vida atual - em um barraco de cômodo único anexo a uma igreja evangélica.
Em indas e vindas que lembram o balanço do mar, vão se tecendo o histórico de seus descendentes, bem como o seu próprio, de modo que o ancião tenta ansiosamente agarrar-se às memórias que vão de desfazendo em sua mente.
Ao fim, o passado, o futuro e o presente se confundem e se condessam, como se sempre tivessem sido um só e a vida fosse composta fosse essencialmente cíclica...
Vale a pena ler!

sábado, 2 de janeiro de 2010