domingo, 30 de novembro de 2008

Fluoxetina






Tristeza. Tristeza a expirar por meus poros, escorrer por minha pele, contaminar meu suor. Tristeza úmida. Eterna. Comigo.
Tristeza de mãos desfeitas em carne, ossos e sangue. Tristeza de pensamentos desfeitos em neurônios e ilusão.
Tristeza de hoje e só. Somente. Cinzas, poeira e fim. É o fim. E é agora.

Tristeza a me injetar fracasso. Viscoso, forte. Fracasso que ecoa em minhas veias. Sangrento, faminto. Fome de futuro e de sorrisos. Fome de vida! Fracasso aderindo a meus músculos e corroendo meus ossos. Fracasso presente. Eterno. Comigo.
Fracasso de meus desejos. Minha mente é fracasso, e cada pensamento é perdido. É vão, inutilidade, lixo e nada. Fracasso que contamina. Domina e detém. Fracasso que me corrompe. Sou tua, totalmente tua e escrava de tua vontade. Sou fracasso em cada célula, cada passo e cada sonho. Sou fracasso.

Há uma carapaça sobre meus sentimentos. Já não os percebo. Não sei se sinto. Não há nitidez, há apenas manchas, um borrão de emoções. Sim, eu sinto, mas já não sei o que. Há uma barreira. Intransponível e inflexível. Impiedosa. Ou talvez não. Há algum sorriso, vindo de longe. Há também vestígios de planos. Há talvez alguma esperança. Há, afinal, luz contra a vidraça encardida. Confusão e perda. Mas há esperança, e já vale.
Há uma represa em meus olhos. As lágrimas já não reconhecem meu rosto. Tampouco se esvaem. Há algo de angústia líquida que bate contra a vidraça. Mas ela não se deixa lavar. Não há visão. Não há desejo de se ver. Há torpor, um grande torpor. Feliz e perigoso. Triste por perigoso. Torpor envolvente e dissimulado. Agarra-me e domina. Vem de minhas vísceras e me estrangula os pensamentos.
É perigoso, mas também tem piedade. Traz o alívio corrupto da falsidade e do engano. É, pois, acima da corrupção, um alívio. É glória e é louvável. E vale alguns trocados na esquina. É também chamada felicidade encapsulada.



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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Nua e Crua





Confesso que no começo tive dúvidas. Um médico extremamente brilhante, mal-humarado e grosso, e que apesar de tudo, acaba por despertar alguma afeição em você? Não... Fácil demais.
A curiosidade venceu, por fim, e comecei a acompanhar a série (Ok, o primeiro episódio que assisti foi o décimo da quarta temporada!Mas...). Acabei me apaixonando!
O médico de meia idade, que não traz nem no rosto, nem nas roupas, muito menos na postura um quê de superioridade, arrogância ou qualquer aspecto que pudesse despertar admiração. Não é um galã... Manca e traz sempre consigo uma bengala. Parece o avesso de um modelo de personagem de sucesso. Apesar disso, acaba-se por nutrir um respeito por este homem. Respeito não conquistado de forma cordial, diga-se de passagem. House é quase sempre rude e um tanto quanto incoveniente. Seus defeitos são encacarados ao olhar do espectador. House pode ser visto abusando de seu poder para humilhar outras pessoas ou mesmo fazer chantagens. Mas sua genialidade é o aspecto que predomina. E apesar de tudo, ainda se cria um afeto e uma admiração por este homem. Incrível!
O ambiente em que se passa a série também não é nada cordial. O cenário é um hospital, e a rotina é a vida contra a morte. Em sua forma mais concreta. Visualizamos a tênue linha que as separa. E somos confrontados a cada série com os limites da medicina e do próprio homem.
H ouse me conquistou. E não pelo roteiro muito bem escrito, nem mesmo pela curiosidade pela medicina. House me conquistou pela realidade que traz. Uma realidade exposta e gritante. Uma realidade que incomoda, remexe em nosso íntimo e nos faz admitir que não estamos preparados para lidar com algumas de suas questões. Em House, há personagens inseguros, personagens que traem, personagens que erram, personagens que vêem seus sonhos desmoronando, personagens que estão morrendo e personagens que morrem. Há personagens reais. Há, acima de tudo, realidade nua e crua.




Não fossem as sacadas geniais do Dr House, acho que quase não acreditaria que se trata de ficção

sábado, 8 de novembro de 2008

A pasta d´água e o batom vermelho...

"A máscara do palhaço oculta um nariz e revela um ser humano"


Grupo Doutores da Alegria, no qual foi inspirado os Alegrologistas.

Primeiramente, as desculpas pela mudança brusca no tema.
Mas ultimamente uma agitação tem me tomado muito o tempo. E preciso compartilhá-la com alguém.
O fato é: estou prestes a me tornar uma palhaça. Simples assim.
E sinceramente estou achando tudo maravilhoso!
Sempre fui uma garota tímida. Muito tímida. Extremamente tímida. Pobre pessoa de ois e tchaus.
Muitas pessoas já haviam me recomendado que tentasse fazer teatro. Aquela velha história de "Não é você quem está lá, é o personagem" e blá blá blá. Nunca acreditei.
Péssima idéia a minha!
Com o grupo Alegrologistas foi quase a mesma coisa. Mas o espírito já havia tomado conta de mim!
Já na primeira oficina tivemos a tarefa de encenar no palco uma situação circense. Qual não foi minha surpresa quando me peguei batendo palmas e rindo como uma criança, enquanto algumas pessoas inventavam uma banda de instrumentos imaginários e outras apresentavam números de mágica fajutos.
Brincamos de fantoches, inventamos situações, inovamos ao contar uma história usando somente os pés, as mãos ou os braços.
Quando me vi, estava encima do palco, falando sem parar por dez minutos!
E percebi que o palco não é realmente tão assustador quanto parece. E que me expor não dói. Faz bem!
Percebi o quanto é bom estar ali e compartilhar gargalhadas infantis com as pessoas!
E especialmente, o quanto é bom inventar vozes e caras estranhas sem se sentir idiota.
Os Alegrologistas me ensinaram muito. Experiência que levarei a vida toda. Um nariz, um jaleco, pouca coisa e muita imaginação. A criatividade que expande os limites do corpo e da matéria. É o plantar sorrisos, uma dose de cura pela alegria. É a vida toda que se contorce, e fala e grita e ri naquele palco. É o que me faz sentir mais humana e mais sublime. Sou alegria por alguns momentos. Sou palhaça!



Estou ansiosíssima pelas intervenções no hospital. Espero carregar ao menos um pouco desse espírito na bolsa e esquecer por aqueles corredores.

sábado, 1 de novembro de 2008

Quem quiser que esteja lendo este texto, já deixo um aviso antes que possam continuar. Não é um texto poético, não traz discussão interessante alguma, tampouco poderá acrescentar o que for a quem quer que venha a lê-lo. É só um texto, tímido e idiota, sem muita racionalidade e nenhuma beleza. São só algumas pobres palavras respingadas de melancolia, refletindo algum snetimento quase esquecido.
O problema todo são dois olhos. Dois olhos que insistem em fugir, deixando presos na garganta aqueles adjetivos que lhes preparei. Os mesmos olhos. Tão arredios, tão confiantes, tão belos. Os mesmos olhos que deixam jorrar sensibilidade, uma sensibilidade espessa e sincera. Os mesmos olhos...
Aqueles olhos por onde hoje eu posso ver alguma racionalidade na fuga. As íris que já não escondem algum motivo. Plausível e real. Cortante.
Tudo parece, pois, demasiado agressivo. O suor, o riso. Aos poucos ferem, sangram, cospem. Aos poucos há um rosto desfigurado. Há um rosto que se torna também agressivo, há espinhos que crescem e escondem alguma sensibilidade. Aous poucos percebo que também sou este riso e este suor. E me enojo. Aos poucos decido acreditar que ainda há alguma sensibilidade, que já não escorre por meus olhos. Alguma sensibilidade escondida, lacrada, quase perdida. Alguma sensibilidade que tem medo de se mostrar.
Quem dera o meu sorriso pudesse mostra-la, quem dera pudesse gritá-la, tão fortemente que com meu grito a fizesse matéria. Quem dera pudesse me desvencilhar de todo esse riso, desse suor. Quem dera me fizesse mais humana...
Quem dera pudesse dizer que talvez você esteja lendo esse mesmo texto, e jamais chegará a saber porque estou chorando agora...