
Tristeza. Tristeza a expirar por meus poros, escorrer por minha pele, contaminar meu suor. Tristeza úmida. Eterna. Comigo.
Tristeza de mãos desfeitas em carne, ossos e sangue. Tristeza de pensamentos desfeitos em neurônios e ilusão.
Tristeza de hoje e só. Somente. Cinzas, poeira e fim. É o fim. E é agora.
Tristeza a me injetar fracasso. Viscoso, forte. Fracasso que ecoa em minhas veias. Sangrento, faminto. Fome de futuro e de sorrisos. Fome de vida! Fracasso aderindo a meus músculos e corroendo meus ossos. Fracasso presente. Eterno. Comigo.
Fracasso de meus desejos. Minha mente é fracasso, e cada pensamento é perdido. É vão, inutilidade, lixo e nada. Fracasso que contamina. Domina e detém. Fracasso que me corrompe. Sou tua, totalmente tua e escrava de tua vontade. Sou fracasso em cada célula, cada passo e cada sonho. Sou fracasso.
Há uma carapaça sobre meus sentimentos. Já não os percebo. Não sei se sinto. Não há nitidez, há apenas manchas, um borrão de emoções. Sim, eu sinto, mas já não sei o que. Há uma barreira. Intransponível e inflexível. Impiedosa. Ou talvez não. Há algum sorriso, vindo de longe. Há também vestígios de planos. Há talvez alguma esperança. Há, afinal, luz contra a vidraça encardida. Confusão e perda. Mas há esperança, e já vale.
Há uma represa em meus olhos. As lágrimas já não reconhecem meu rosto. Tampouco se esvaem. Há algo de angústia líquida que bate contra a vidraça. Mas ela não se deixa lavar. Não há visão. Não há desejo de se ver. Há torpor, um grande torpor. Feliz e perigoso. Triste por perigoso. Torpor envolvente e dissimulado. Agarra-me e domina. Vem de minhas vísceras e me estrangula os pensamentos.
É perigoso, mas também tem piedade. Traz o alívio corrupto da falsidade e do engano. É, pois, acima da corrupção, um alívio. É glória e é louvável. E vale alguns trocados na esquina. É também chamada felicidade encapsulada.
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