sexta-feira, 25 de abril de 2008

Texto perdido em um caderno antigo... Um caderno antigo entre todos os cadernos antigos do mundo. Um caderno antigo como aquele seu, guardado no fundo da gaveta e que contém todos os seus segredos mais profundos.







Estou grávida

Grávida de canções e versos que nunca verão luz. Grávida e não sou mãe, antes se entrelacem em mim a realidade e o limbo e me fazem grávida

Grávida de canções tão puras e de musicalidade tão exacerbada que conquistem o mundo

Estou grávida

E me sufocam a realidade e a rotina de um povo que se orgulha, e trabalha, e compra e morre

E me aperta o ventre a imundície de notas frias, roubadas, carros de luxo e barracões de madeira

Estou grávida do sorriso e do amor, da música, do nirvana

Grávida de vida e seu mistério, dois fetos talvez

Estou grávida e nao há tempo para o parto

Há deveres para cumprir, palavras a serem repetidas

Início de aborto: uma lágrima. Injustiça a escorrer por minha pele

É frágil a vida e estou grávida desta fragilidade

2 comentários:

Unknown disse...

Gostei muito do seu texto, tem coisas que desenterramos as vezes e refletimos sobre o que pensávamos àquela hora e descobrimos que as coisas continuam as mesmas.

"Feliz é fado do puro inocente.
Esquecida pelo mundo que ela esqueceu."
-Brilho Eterno de uma mente sem lembranças.

João Gilberto disse...

Gostei muito do blog, e desse texto em particular; virarei leitor assíduo!

Gostaria de ter nascido mulher apenas para escrever essa frase: " É frágil a vida e estou grávida desta fragilidade"