terça-feira, 2 de março de 2010

Reciclagem de vida

É fato que os estilos musicais predominantes de cada época compõe um ciclo. Um estilo musical mais agressivo é sucedido por um mais calmo, o qual será novamente sucedido por um estilo agressivo, por exemplo. É fato também que este ciclo não se realiza de forma rígida e que possa ser temporalmente especificada. Dentro dele há muito espaço pra inovação. Novos instrumentos, combinações inéditas, letras diferenciadas. Afinal, os tempos são outros e os estilos musicais também o são. E, embora sempre se grite aos quatro cantos que estamos vivendo uma nova era, ao final descobrimos que este novo som guarda profundas semelhanças com o início do ciclo.



Acredito que assim também é a vida. Que vivemos por reinventar nossa forma de ser, seja no campo profissional, afetivo, social ou espiritual. E não nessa ordem, muito menos ao mesmo tempo. A cada fase de nossa vida, resgatamos um pouco de nosso passado, um pouco do que já fomos, e o trazemos a tona totalmente restaurado. Somos diferentes, mas ainda somos os mesmos. Porque os conceitos, as imagens e as atividades não mudam, mas muda o nosso olhar sobre elas, muda nossa forma de pensar e agir sobre elas. Afinal, há sempre espaço para a inovação neste ciclo.



Já ouvi histórias de pessoas que lêem, de tempos em tempos, um mesmo livro. E o fazem pelo prazer de saber que, apesar de as palavras serem exatamente as mesmas, o sentido que o livro adquire a cada ano é sempre novo. E que este novo sentido sempre diz muito sobre elas.
Ainda não adquiri este hábito, mas acredito que pude sentir algo próximo a isto quando, esta semana, reencontrei duas antigas paixões. O primeiro reencontro aconteceu ao ler o livro "Pra Ser Sincero: 123 Variações sobre um mesmo tema", em que Humberto Gessinger fala sobre a banda Engenheiros do Hawaii, minha obsessão de adolescência. O segundo, foi ao sentir o contato do pincel com tinta a óleo misturada a óleo de linhaça na tela, e experimentar novamente aquele cheiro familiar.

Certamente, a sensação não é a mesma de anos atrás. As letras de Gessinger já não são mais obsessão, mas apreciadas como boa música. Na ponta do pincel, há muito menos pretensão e mais paciência. Mas apesar de tudo, algo persiste. Talvez apenas o aconchego de lidar com o familiar. Talvez, a boa sensação de acreditar em uma identidade estável para mim mesma. Ou, quem sabe, o prazer de sentir que mais uma vez o ciclo recomeça...

E pra finalizar, vou plagiar Gessinger:

Reencontrar prazeres antigos fica na esquina entre a saudade e a vontade de inovar. Um bom lugar para se conhecer.

3 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Flavita, ameeeeiiii esse seu escrito! Me identifiquei muito com ele!!!!
Tenho uma escritora no quarto ao lado! =)

Unknown disse...

Flavita, ameeeeiiii esse seu escrito! Me identifiquei muito com ele!!!!
Tenho uma escritora no quarto ao lado! =)