quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Não conte contos de fadas para seus filhos

Não conte contos de fadas para seus filhos. Eles são machistas e trazem implícitos valores no mínimo polêmicos.
Esta foi a conclusão que cheguei após uma pequena análise dos principais contos de fada. Para mim, eles podem parecer inocentes, mas trazem muitos valores implícitos que não compartilho. Você duvida? Pois passemos então a descrição de cada um:



Cinderela:
Só por ser um conto de princesa, já traz valores machistas. Afinal, toda história que envolva um “amor a primeira vista” traz –a meu ver - esta carga agregada. Isso porque a paixão e o encantamento do príncipe à Cinderela devem-se – tão e somente – a beleza desta, de modo que se tem a associação entre o belo e o bom e abre-se margem para a crença de que só quem é belo merece ser amado. Um tiro na auto-estima das meninas. Além disso, dentre as clássicas princesas Disney, todas são magras e a maioria tem pele clara – exceto a Jasmine do Aladin - e olhos claros também. Ou seja, uma grande parte das garotas não se identifica com este padrão, de modo que temos mais um tiro em sua auto-estima.



Branca de Neve:
Novamente, o único valor da princesa deve-se ao fato de ser bela. E só. Branca de Neve revela-se uma garota frágil e inocente, sendo facilmente enganada pela bruxa, de modo que só sobrevive graças a proteção e ajuda de um homem – no primeiro momento o caçador, e depois o príncipe, que a ressuscita com um beijo. Traz o paradigma da mulher enquanto sexo frágil, que necessita de proteção do homem. Este paradigma acaba por implicar em uma hierarquia, no qual a mulher está em desvantagem. Afinal, é apenas quando o príncipe aparece em sua vida, se apaixona – porque ela é a mulher mais bela do mundo, segundo o próprio espelho mágico e, por isso, merece ser amada – e casa-se com Branca de Neve, que esta tem a oportunidade de ser feliz realmente. A princesa não poderia jamais ser feliz sozinha, e o príncipe, o homem, é sua garantia de uma vida feliz para sempre. Isto se repete também na Cinderela, onde príncipe aparece para tirá-la de sua situação de escravidão uma vez que, sozinha, esta não teria autonomia para superar esta adversidade.



Bela Adormecida:
Para mim, o exemplo mais forte de falta de autonomia. A princesa permanece por cem anos – CEM ANOS! – esperando pelo príncipe que a salvaria. E mais uma vez, quando é salva por este, tem sua garantia de uma vida feliz para sempre.



A Bela e a Fera:
O expoente do machismo e dos valores duvidosos. Primeiramente, Bela é entregue à Fera como castigo pelo mal comportamento do pai, ou seja, Bela é praticamente negociada tal como uma propriedade de seu pai. Bela se apaixona pela Fera, embora só fique realmente com este quando há uma transformação – e a Fera passa a ser um belo príncipe. Para mim, este conto de fadas é o mais comprometido com o paradigma do belo e bom. O tiro mais bem mirado na auto-estima das crianças.


Alguns podem acreditar que eu sou uma feminista louca e generalista. E assumo – talvez haja sim algum exagero em minha descrição – embora alguma verdade está também certamente contida. Tenho um certo gosto por tradições, mas acima disto, acredito que estas devem ser sim deixadas de lado quando notado que alguns valores já não são mais bem-quistos. As mulheres conquistaram seu espaço, sua autonomia e seu valor – que vai muito além da beleza física. E alguns contos também conquistaram novas formulações - mais adequadas e direcionadas à igualdade. O exemplo maior disto, para mim, é Sherek, releitura de A Bela e a Fera em que a princesa é que passa a ser fera, em uma história marcada pela valorização do diferente, que nem sempre é o mais belo, mas nem por isso perde.

3 comentários:

Arthur Damião Médici disse...

Lembrando que, além de fazer a cabeça das meninas, reforça essa idéia dos meninos de "ter que ser o salvador da donzela".
Agora a gente entende de onde vem essa mania dos homens de prometer o céu e a terra para as dignissimas donzelas com o intuito de (se me permite dizer) transar com as moças e pular fora.
Gostei muito da idéia do post. Estou escrevendo algo muito parecido. Isso vai a favor da minha idéia de que essas tradições culturais bestas devem ser interrompidas o quanto antes. Não há constatação de que essas coisas são necessárias para o desenvolvimento intelectual ótimo da criança.
Aguardo novos posts!
Um beijo!

Nai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nai disse...

Esses contos são todos de tradição oral, por isso não sabemos o verdadeiro autor, mas em primeira instância nem eram infantis, foram adaptados por alguns europeus em algum século recentemente passado, mas são trazidos desde antes do século X... eu quero que meus filhos conheçam essa riqueza!! A pele e olhos claros, além de outros esteriótipos são de responsabilidade da disney... e se vc consegue IMAGINAR, afinal é isso que os contos incentivam: IMAGINAÇÃO, vc consegue fazer sua filha acreditar que é uma princesa mesmo sem ser branquinha de olhos azuis, eu smp acreditei que sou uma e tenho olhos castanhos.
Além do mais, o clássico citado A Bela e a Fera é um dos mais lindos, a Bela se apaixona pela Fera apesar de sua feiura exterior e se quer saber, a Fera do conto clássico era bem mais "assustadora" do que a que a disney criou. E a Bela não foi negociada, ela se ofereceu para ficar no lugar do pai, por amor à ele.
Fico impressionada com a crença de que os contos podem ser "interrompidos". Eles existem há mais de 1.000 anos, passaram por guerras, ditaduras, mortes e continuam ae... vivos. Sabe onde? Na memória, por isso: viva os contos de fadas, as princesas e os príncipes. Se não sabem... toda mulher é uma princesa, é um direito! E todos os homens são príncipes tbm... até os metidos a modernos como vc, caro Arthur Damião!
De fato, os contos não deixam ninguém mais ou menos inteligente, mas podem te fazer coisas maravilhosas: acreditar, imaginar, sonhar, lutar.

E fica pra reflexão:

Creio que a imaginação pode mais que o conhecimento.
Que o mito pode mais que a história.
Que os sonhos podem mais que os fatos.
Que a esperança sempre vence a experiência.
Que só o riso cura a tristeza.
E creio que o amor pode mais que a morte.

Robert Fulghum em Tudo o que eu devia saber na vida aprendi no jardim de infância, Editora Best Seller