quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A sabedoria popular condena que se julgue o livro pela capa. Ok... Mas como negar a atração que esta proporciona? Acredito que a grande maioria das pessoas, quando não compram livros por indicação de alguém, compram pela capa. Ela, além de ser o cartão de visita de qualquer obra, ajuda a formar a idéia que teremos dela.



Mas aonde quero chegar com isso? Muito se critica a falta de leitura dos jovens, mas acredito que a forma como os clássicos são apresentados nas escolas tem, sim, contribuído para isso.



Primeiramente: é pouco provável que alguém comece a ler por Machado de Assis. Pouquíssimos adolescentes teriam esse nome estampado no livro de cabeceira. É preciso antes disso estar familiarizado com a idéia do livro, conhecer o ritual de tê-lo nas mãos, entre as pernas, sobre o travesseiro ou na mesinha do Café. É preciso, sim, conhecer os livros. Ouvi uma vez uma entrevista - infelizmente não me lembro mais quem era o entrevistado - mas este dizia que é possível reconhecer de longe as pessoas que estão acostumadas a ler. O contato com o livro já não envolve nenhuma cerimônia. O objeto já é seu conhecido, e o ritual torna-se quase automático. Elas pegam os livros, abrem-nos, retorcem, deixam-nos sobre a cama ou ao lado do despertador. A presença do livro é agradável ou, por vezes, até mesmo indiferente. E essa indiferença é bom sinal: mostra que já se quebrou aquela imagem de livro empoeirado e misterioso no alto das prateleiras de intermináveis corredores. O livro não guarda mais mistério, mas nem por isso ele deixa de existir : o mistério está agora nas palavras. E esta descoberta é toda a questão.


Ok, mas se não é possível começar a ler pelos clássicos nem ler Machado sem estar habituado aos livros, o que fazer? É aqui que entram os autores "que falam sobre o nada" (Mais uma vez a expressão não é minha, li em algum artigo, mas também não me lembro o nome do autor). Sim! Viva J. K. Rowling! Viva Kalhed Hosseini! Autores tantas vezes massacrados pela crítica, porém essenciais na introdução de jovens no mundo dos livros. É preciso, sim, mais autores que escrevam histórias bobinhas e sem entrelinhas, livros que se compram em qualquer esquina e que não ofereçam nada ao senso crítico e à visão de mundo das pessoas. É preciso, sim, autores que escrevam sobre o nada e façam de seus livros de feira objetos indiferentes nos quartos dos jovens. E por mais contraditório que pareça, que os aproxime da extravagância deliciosa de Brás Cubas.

Mas voltando ao assunto do início do texto, como se espera que algum adolescente demonstre o mínimo interesse em abrir um daqueles livros amarelados com uma foto de um senhozinho muito antipático de monóculos? Isso cheira a monotonice! Confesso: A primeira vez que vi "Dom Casmurro" tive certeza de que nunca leria "aquilo".
Eis que, no entanto, no meu primeiro colegial aparece um livro extravagantemente laranja e florescente na minha frente, com aquele mesmo nome e nenhuma foto antipática. E confesso novamente: Me apaixonei! Não conseguia desgrudar as mãos e os olhos daquele troço laranja. E descobri que tinha me apaixonado por aquele carinha antipático de monóculos!



Os livros não deviam ser julgados pela capa. Mas eles são! E isso é muito importante para a estimulação da leitura e da cultura. Quem conheceu Machado pelo extravagante laranja sabe do que estou falando! E só isso fará com que os jovens se apaixonem pelo nossos gênios literários!

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