sábado, 25 de outubro de 2008

Divagações


A cidade dorme. A cidade deleita-se em um sono profundo. A profundidade da ausência. O não-ser, o breu, a essência, o anterior à vida. A cidade cede à um arrombo no tempo-espaço, e, por alguns momentos, a cidade deixa de existir. O sufocante da não-existência. O gélido e cruel punhal que decepa as sonolentas consciências, os sonolentos anseios, as sonolentas vidas. Aquelas vidas que ali jazem, que ali se entregam voluntariariamente à quase-morte. Entregam-se à servidão do vegetar. A pausa do tumtuar eterno dos desejos, a pausa da bile e do suor, a pausa dos medos. Os lábios se calam, as mãos se acalmam, as pálpebras permanecem imóveis.O universo está imperceptível. O universo mergulha pacificamente na não-existência também. A profundidade da ausência, o horror do tiquetaquear solitário...

Agora calma, agora passa. A mãe acalma, a mãe aconchega. E chega, é só. Acalma... Amansa... Deixa ser. A santa, a trança, a cama, a nana... Ninar... Sina, mima, estima. Relaxa, estaca, espira, inspira. E só. E só. É só...

Um sopro, o vento. Vem rápido, um turbilhão! Tufão, aspereza, sagaz e violento. É máquina, é pedra. As luzes, piscar! Estrelas, manchas... Há algo! O som, ao longe, eu ouço! É som, incessante, ruído, não pára. E porque? Aonde? Aqui? Há carros, fumaça, desejo e trabalhar. É preciso nascer, é preciso retornar. Há vida, ainda há sobreviver!Um sobreviver sujo de sangue e de vida, um sobreviver descarnado de humanidade. Ainda há lama, ainda há carranca, ainda há um tênue fio de vida. Ainda há direito de sobreviver.

Um comentário:

Luiz disse...

Não sabia que tinhamos uma poetiza moderna na sala. Pelo visto sempre ha algo novo a se descobrir

Bjum Brahma